jeudi, juillet 15, 2010

Porque aquele é o momento em que acabavam as tentativas de união.

Acabam as possibilidades de sangue frio.

Se quer toda a efervescência desequilibrada da madrugada.

Toda a guerra de segundos para falar aquilo que nem se pensa. Não sabe nem se sente.

Só incita, só provoca. Quer ver sangue.

Mas ainda covarde, esconde-se nas madrugadas.

Como ousa?

Como ousa me abandonar mais uma vez?

Pior.

Como ousei deixar -me abandonar novamente?


na madrugada todo mundo pode tudo.

mercredi, juillet 14, 2010

Ela fez cinema




"Ela não tem amigos. Vive de rascunhar roteiros de um filme com final infeliz. Seus amores são cenas mal cortadas, seus atores se vestem mal e declarações pessoais não passam de diálogos sem improviso. Ela não tem ninguém. Suas poesias andam sem rima, sua música ficou instrumental e suas crônicas são sobre o impossível. Largou o cigarro e isso a tornou mais chata do que a própria ignorância que ela mesmo estabeleceu por querer amar demais. Como se ignorância fosse amor. Pudera, quem vive de cinema escolhe a sua própria tragédia. E a dela foi ser incompreensível como mulher. Ou uma doméstica de pornochanchada."


Marcelo Mayer

vendredi, juillet 02, 2010

Rosa era de pouca inteligência.
Escutava sempre o que tinham a dizer, e com suas poucas informações ia construindo pensamentos pra quando chegasse para arrumar a casa.
Fazia faxina às terças e quintas na casa de uma senhora bonita, madame meio viúva, que se encontrava com moços estranhos.
A madame tinha várias amigas, e dentre elas, uma ruiva estranha que estava sempre a sua casa, sassaricando e atrapalhando-lhe o serviço.
Ouve as duas mulheres, que, ao trocar palavras, gritavam, isso que tanto a Rosa irritava.
Diacho de velhas que gritavam.
Rosa era humilde mas não falava alto não.
Ela era toda receptada em sua fragilidade.

'Pois não, Bela, se aquela mulher de pouca fé não andava de falâncias sobre sua pessoa por aí.. numa falsidade só.'
Subira rapidamente à cabeça de Rosa aquela reclamação aparentemente tão repleta de lógica.
Mas guardou como dever de casa. Não conseguia fazer duas coisas ao mesmo tempo.
Aquele assunto renderia na arrumação do dia, pois já cutucava a moça, que não conseguia pensar em outra coisa.

'Rosa, menina, se quebras outro vaso meu ponho-te para fora! E dessa vez, cumpro, vice? Tiro de seu salário esse'
Era por isso que a faxina não podia ser atrapalhada por devaneios.
Que raiva tinha ainda daquela madame desocupada que só sabia falar alhos alheios.

Foi terminando o serviço, caprichou em tudo e pegou suas economias de muito tempo que estava para comprar sapatos novos, rasgados que estavam.
Não, fazia parte da construção daquele dia único o pagamento de toda e qualquer dívida com aquela velha mal criada.
Seu pensamento dali em diante devera fluir somente para a irracionalidade das mulheres que conversavam naquela tarde.
Ela precisava pensar sem que interferência alguma houvesse. E, portanto, foi pagando tudo, o que assustou a patroa.
'Patroa não, faxineira que sou...Trabalhadora liberal. E esse dinheiro tenho guardado. Pegue logo senão não hei de pagar. Procurarei outra residência, não de voltarei mais a esse lugar'

Quando fechou os olhos, minutos antes de sair da casa que despertara tamanha mistura de sentimentos, Rosa imaginou fumaça
Desejava um cigarro, achava aquilo tão chique, seu pensamento pobre sairia daquela maneira um pouco mais importante.
Sentou-se na rede limpinha de sua casa - não tinha de fazer, lavava tudo.
E começou a refletir sobre aquela palavra ainda pouco estudada: falsidade.

Tão teoricamente lhe aparecia a ideia de que só aquilo construía a rápida felicidade, que faz a nós capaz de suportar a vida
nos dá ilusória perspectiva de um relacionamento não extraviado, mas viado duplamente, como numa métrica musical soante.
Aquilo que quebra todos os paradigmas e nos proporciona a necessária segurança de que precisamos em determinados momentos da vida.

Quando vem a nós a verdade, que esta má, fere à frio, estamos lá, postos a reclamar da falsidade.
Única que, há pouco, nos deu aconchego ao coração para que aguentássemos a lástima férvida da vida.
Parecia-lhe tão óbvio. Assim como que fumar houvera feito causado uma terrível doença de tosse. E rápida.

Ora, se para reclamar do que nos faz continuar deve haver sentido grande...

Assim terminava seu breve devaneio diário.
Rosa pôs-se a jogar fora aquela caixa de cigarros mas hesitou.
Prudente que era, guardou em seu armário, custara-lhe dinheiro.
Tentaria elevar-se outros dias com aquela sórdida companhia da fumaça rica...

vendredi, juin 11, 2010

recado para alguém especial

Talvez não seja você nunca aí. E fica claro ao ler acerca do seu ser descrito aos poucos nesses diversos personagens sobre os quais escreve inopinadamente numa espécie de mosaico autobiográfico.
Pode ser que haja compreensão para todo intelecto humano, mas jamais para as sensações destituintes e construintes de uma alma.
Mas saiba: a intenção maior da realização que se faz aos poucos nessa descoberta do si – a escrita - é de uma aceitação daquilo que se sente de maneira confusa. Escrevendo se tira de dentro e organiza-se pouco a pouco as sensações. Por isso a corrida desenfreada por novas palavras, que nos traz uma ilusória capacidade de exprimir algo para sempre inextricável. (Faça um exercício. Em poucas palavras, cotidianas, mostrar a intensidade do que se sente ao ser.)
Mas tristeza maior é pensar que, ao descobrir-se não ser alguém “daqui”, descobre-se concomitantemente um ser que nunca sairá de dentro de ti. Um mistério obscuro e covarde. Que instiga, vomita partes de alma, mas nunca sairá por completo de dentro. Toma ações em nosso nome, por nós, perfeitos em corpo, em tese, em inteligência. Nos trai. Pois não se forma por completo em nosso humano. Aí está nossa mais humilde fraqueza. Nossa discordância. A incoerência de um menino normal e lindo como você que mergulha nas profundezas de um ser que te afoga. Afoga a todos nós. Ninguém se torna capaz de lê-lo. Ninguém é capacitado a ter uma compreensão isenta de julgamento. Então é preciso força. Mas parte de nossas almas é covardia. É uma luta contraposta. Que, espero eu, não acabe nunca.

Sorte. Amor.
Já dizia Nietzsche, "quem sabe sofre".

mercredi, juin 02, 2010

no avesso de mim

por mais marginal seja alguém capaz ser
ninguém escapa do peso das imposições do alheio.

sempre montei-me no alheio
no amor que doava a eles - a você - no cuidado, no pensamento
por isso então quanto mais afundava-me em minha descoberta, mais pecava pela falta de coerência ao olhar do outro.
a alma gritava de dentro da pele por espaço próprio em minhas ações.
que saíam sempre naquilo que chama-se de impulso vital.
aquilo que manteve-me viva nos últimos meses
chorando com os julgamentos e gozando do prazer que só pudera aquela liberdade proporcionar.
fazia confusão das mentes que acompanhavam aquelas manobras da sórdida realidade que houvera antes eu escolhido
era irracional. mas tão humano, intenso e relativo a relações...

agora o que mandaram-me fazer é ser individual.
cuidar do si, manifestar ideias liberais, sem que haja pré julgamentos ou conceitos quaisquer
viver deleitando prazeres próprios, mas com a responsabilidade do egoísta, que nunca é senão racional
está certo que isso todos deveriam fazer...
mas viver para mim nunca foi viver, a meu ver
meu espaço de alma sempre foi somente a escrita
o resto era tempo alheio.
agora devo preocupar-me então com meus estudos, com minha saúde, minha familia, meu corpo.
vou preenchendo então meu dia de primeira pessoa no singular que sufoca.
desmaio e peço ajuda.
me fale seus problemas, quero ouvir.
não vou ajudar-te, posso até decepcionar. mas me deixa tocar.

preciso encostar no outro. e não sei se fujo assim do mim.
sei apenas que presente, as duras asas da borboleta vão fracas e egoístas
buscam campos, companhias, para assim completarem-se aos poucos, numa ilusão bonita.
- se bem que nisso quase já perdi-me.
as relações já começam pelas metades, assim sendo vê-se pouca entrega.
eu, por exemplo, quase já não me decepciono - as poucas pessoas encarregadas desse papel já o cumpriram muito bem.
quando deparei-me então com dessemelhante realidade aos poucos construída, encontrei comigo somente o si.
e agora é viver de mentira. de individual. de si.
de metades.
sem amanhã. isenta de perspectivas. sonhos. amores ou decepções.